A organização da Copa de 2014 capenga? As obras para adequar as cidades-sedes brasileiras que receberão as competições do maior evento midiático do planeta estão atrasadas? A resposta para as duas perguntas é única. E singela. Estão. E em grau extremamente elevado. A terceira pergunta, natural, é reta e direta: por quê?
Quem tiver um mínimo de disposição para realizar uma brevíssima peregrinação ao passado constatará, sem dificuldade alguma, que a candidatura do Brasil a hospedar a Copa do Mundo sagrara-se vencedora antes mesmo de o presidente Lula, em nome da sociedade, assinar o Caderno de Encargos que comprometeu o governo com iniciativas várias para sediar a competição.
A Fifa, entidade que dirige, regula e dá as cartas em matéria de futebol no mundo, declarou, sem vocalizar, que o Brasil organizaria a Copa de 2014 quando decidiu fazer do continente africano o destino da Copa de 2010, e que competiria à América do Sul organizar a edição de 2014.
Com o apoio declarado ou tácito de todas as confederações de futebol sul-americanas, a CBF formalizou a postulação brasileira, com o apoio entusiasmado do presidente da República, no primeiro semestre de 2007. E quando outubro daquele ano chegou, comemorou a ratificação de que o país seria o palco do Mundial de 2014.
Ainda que o lapso de tempo entre a formalização da candidatura e a decisão da Fifa não propiciasse prazo vasto para lançaram-se, a CBF e o governo federal, à tarefa de elaborar um anteprojeto de organização do evento, entre o primeiro dia útil de 2008 e 31 de dezembro do ano passado tempo houve. Que se tivesse sido aproveitado para dar a luz a um planejamento estratégico, teria evitado que o secretário-geral da Fifa, Jérome Valcke, recriminasse o Brasil por não transformar ideias e concepções em projetos tangíveis, por não respeitar a própria palavra empenhada.
Precisar, de maneira substantiva, as causas, as razões do atraso não resultarão, agora, em qualquer tipo de solução. Até mesmo porque o Brasil, em matéria de tempo cronológico, encontra-se na antevéspera da realização da Copa das Confederações, a ser disputada em 2013, um ano antes da Copa do Mundo.
Esse é um grande teste para o país, na medida em que permitirá aos responsáveis pela organização da Copa de 2014 mensurar o que necessitará, ainda, ser realizado para que tudo atenda os paradigmas da FIFA. Exigências que podem ser mudadas a qualquer instante, conforme consignou o presidente da CBF e do Comitê Organizador Local, Ricardo Teixeira, em correspondência certificando que o Morumbi, estádio do São Paulo Futebol Clube, está, já, em condições de receber um dos jogos semifinais da competição.
Realizar, contudo, um inventário minucioso sobre o que deixou de ser feito - como, por exemplo, prever que estados e municípios não disporiam de recursos próprias para as obras nos estádios públicos, como o Maracanã e o Mineirão, por exemplo - e que os investidores privados não bancariam esses gastos é mais do que salutar. É preciso.
Essa necessidade decorre do fato de que a sociedade nacional, por intermédio do presidente da República, do governador do Estado do Rio de Janeiro e do prefeito do Rio, assumiu a complexa tarefa de sediar os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016. O evento, a jóia da coroa dos festivais internacionais, será o apanágio de uma série de megaeventos que o Brasil acolherá entre a partir de 2011.
Hospedar esses festivais poderá render ao país resultados extremamente positivos e desejáveis, pela fidelização de uma quantidade expressiva de turistas internacionais e pela valorização da marca Brasil, como ocorreu com a Alemanha no rastro da Copa do Mundo de 2006, implicando impactos econômicos e financeiros de longo prazo.
Para que esses objetivos sejam, porém, devidamente alcançados, é imprescindível que as obrigações contratadas pelo governo brasileiro e pela CBF saiam do plano da retórica, do discurso meramente publicitário, e transformem-se em projetos. Antes tarde do que nunca. Porque se tal obrigação não for contemplada, o prejuízo será coletivo. E quem o bancará seremos todos nós. A sociedade brasileira, enfim.
A Professora Raquel Teixeira é deputada federal pelo PSDB de Goiás e presidente da Comissão de Turismo e Desporto da Câmara.